dezembro 03, 2006

O uso indevido do epíteto "Nigger/Nigga" pelos Rappers ...

Por: Avelino A. Kalunda

Alguns jovens que dentro e fora do nosso país procuram exprimir as suas opiniões e mensagens ou experiências de vida, através do estilo de musica “Rap” usam a palavra ‘’’Nigger ou nigga’’, sem se darem conta (provavelmente) de estarem a perpetuar uma suposta característica rácica negativa do homem Africano. Para fazer uma retrospectiva sobre este epíteto (Nigger /niga), interessa recordar a origem desta palavra.
No período mais sombrio da discriminação dos povos Africanos/pretos, esta palavra foi usada para descrever os povos deste continente como sendo: Brutos desprovidos de intelecto humano respeitável, animais sexuais, intelectualmente atrasados, homem/mulher perpectuamente-criança, negligente da sua família biológica. Todos estes atributos negativos, foram associados na palavra “Nigger ou nigga”. A etimologia da palavra Nigger (nigga) pode ser traçada no latin (Nero), significando preto. O latin Nero tornou-se substantivo negro (pessoa negra). No Francês moderno, Niger começou a chamar-se de negre e mais tarde, négresse (mulher negra). Todos estes nomes faziam parte do lexico histórico.
Esta palavra Nigger (Niga) é por isso pejorativa. No Inglês que antecedeu o actual, as variantes eram: negar, neegar, neger e niggor – que se desenvolveu para um léxico semântico paralelo na mesma língua. Supõe-se que nigger (niga) resulta da pronunciação errada da fonética, pelos Euro-Americanos (brancos) do sul dos Estados Unidos da América. Mas não importa a sua origem, o que vale aqui realçar é que este epíteto foi firmemente definido como palavra negativa, pois era/é usada para descrever negativamente os povos Africanos/pretos. Dois séculos depois, esta palavra representa o símbolo do racismo branco.

O que na maior parte do tempo, alguns jovens com talento artístico omitem levar em linha de conta, é que tudo que é negativo, é pintado de negro e isso não é/foi um acaso: Mercado negro (mercado ilegal); dia negro (dia triste); Zwarterijders [passageiro preto!] (passageiro dentro dum autocarro ou trein, tram ou metro, sem titulo de transporte - em Holandês), magia negra, a cor do diabo é preta, blackmail (chantagem), denegrir (rebaixar, desvalorizar) … etc., etc. E agora o inverso: A pomba da paz é representado pela cor branca, e mesmo nos Dicionários - o branco é definido como: Puro, ingénuo, imaculado, pacífico, divino etc. A esse propósito, no seu último livro, Tavis Smiley*1 escreveu: ‘‘As palavras têm significado – elas não são arbitrárias – as palavras têm poder – as palavras podem conter a força de amor ou de ódio’’.

Por estes motivos, a palavra Nigger (niga) foi (é) usada para justificar o desprezo dos Africanos, duma maneira precisa (o homem/mulher preto/a). Seja quando é usada como substantivo ou adjectivo, ela reforça o estereotipo que descreve o Africano como um sub-humano.

Neste contexto, por esta palavra ter sido importada do estilo dos artistas (Rappers) Afro-Americanos, seria sensato os nossos rappers se situarem no tempo e espaço. Verifica-se nestas últimas duas semanas nos U.S.A. uma polémica sobre o uso desta palavra ‘Nigger’ pelo comediano, Michael Richards*2, que depois de ter perdido o seu temperamento no palco, chamou alguns assistentes Afro-Americanos de ‘niggers’ por estes aparentemente exprimirem objecções durante a apresentação do seu monólogo cómico na plateia. Ele chamou nomes a dois jovens Afro-Americanos ao dizer :

Estes niggers têm sorte, porque se eles tivessem que fazer estas objecções nos anos ‘50, vos enforcava como bestas’’- (com estes termos, este comediano referia-se aos linchamentos de pretos nos Estados Unidos da América, no referido período). Usou igualmente termos explícitos para querer dizer que os pretos não passam de sub-humanos. Estes e outros epítetos eram usados com mais frequência contra a Diáspora Africana (e não só) nas décadas de … 40, 50, 60, 70 e mesmo 80. (…).
Como punição, este comediano, não sómente pediu perdão publicamente na televisão, como também foi obrigado a re-encontrar-se com os dois jovens a quem dirigira os tais insultos, para duma certa maneira ser perdoado pela comunidade Afro-Americana, e isso depois de ter pedido perdão aos líderes da comunidade, os Srs. Al Sharpton e Jesse Jackson.

Verifica-se por isso, actualmente na comunidade Afro-Americana, uma mobilização, para obrigar as instâncias superiores do país, a classificarem esta palavra como ‘Hate word’ (palavra que excita ao ódio) para fazer com que alguém que fosse ouvido a usar o mesmo epíteto, seja punido judicialmente.

Das muitas personalidades actuais de peso na sociedade Americana envolvidas na luta para a abolição deste epíteto, destaca-se a Sra. Oprah Winphrey! E foi criado para o efeito um website (abolishthenword.com), onde na sua página de introdução desfilam as imagens horrendas de vítimas de racismo, com o texto a fazer lembrar o visitante:‘‘Every black person who was murdered by lynching was (probably) called Nigger first. … So, why use this word now?’‘ (Toda pessoa preta morta no linchamento foi [provavelmente] chamada de ‘Nigger’ antes de o matarem. Assim, sabendo da historia desta palavra, porque usa-la mais, agora?).

É importante recordar, que o respeito que se pode esperar dos outros povos depende de nós mesmos. Fica por isso incompreensível se exaltar quando um branco chama um Africano de ‘nigger’, e ao mesmo tempo não chamamos a razão os nossos “poetas/artistas” que não param de promover o mesmo epíteto. Os membros da nossa sociedade residentes dentro ou fora do país, com talento artístico, peritos na improvisação de rimas em fim… com dons de transmitirem as suas opiniões, as suas experiências de vida através da música rap, deveriam pautar pela originalidade e mais respeito pelo percurso da nossa existência como povo digno de respeito e admiração.
Como escreveu um dos grandes homens, Frederick Douglass:
“…Onde a ignorância prevalece e onde uma classe de gente sentir que a sociedade é uma conspiração organizada … para degradar as outras pessoas, correm-se os riscos de um mau relacionamento entre elas‘’ *3.

Final: Parar com esta forma de denominar e considerar a pessoa não branca, é honrar a nossa história, é respeitar a memória colectiva, evitando desta maneira banalizar as humilhações a que foram submetidos os nossos antepassados e em última instância é valorizar a história heróica dos nossos povos.
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Referências Bibliográficas :
*1 – What I know For Sure, pág. 93, - Doubleday Publisher - 2006 (Tavis Smiley)
*2 –
www.blacknews.com
*3 – Discursos de Frederick Douglass (Preto abolicionista , Abril 1886 [viveu de 1817-1885] )

1 comentário:

nandi disse...

achei pertinente. mas do msm jeito tb nao considero saudável 'erradicar' palavras...
elas podem mt bem ser re-significadas...